O Massacre do Monte Meadows
No dia 11 de setembro de 1857 um grupo de imigrantes que conduziam gado para a Califórnia foram emboscados e mortos, incidente esse conhecido atualmente como o Massacre do Monte Meadows. Muitos detratores da Igreja exploram esse fato, por si só cruel e trágico, para difamar a Igreja. O objetivo desse artigo não é defender as pessoas que fizeram tamanha crueldade, mas sim para dar um contexto histórico melhor e para acabar com as falsas acusações.
O Partido Baker-Fancher
Em julho de 1857 o partido Baker-fancher chegou a Salt Lake City. O grupo originário de Arkansas, com outras pessoas se filiando a ele no Missouri, estava com destino para Califórnia. Eles seguiram a trilha de Oregon até Salt Lake e então se dirigiram para o sul através de Utah para terminar sua jornada na antiga trilha espanhola. A comitiva estava estimada entre 120 a 140 homens, mulheres e crianças. Além disso, eles estavam com centenas de gados, e vários cavalos, bois e mulas.
Em julho os Mórmons estavam celebrando o décimo ano de aniversário de sua chegada ao Vale de Salt Lake, e no meio de uma reforma religiosa para restaurar o zelo para um povo crescentemente apático. O profeta Brigham Young e o apóstolo George A. Smith eram bem conhecidos por seus calorosos sermões. Foi nesse clima que Brigham Young recebeu a noticia que o Presidente Buchanan havia cancelado o serviço de correios para Utah e enviou um novo governador para o território, Alfred Cumming, que foi escoltado por tropas federais, para “restaurar a ordem”. Não havia absolutamente nada fora de ordem, mas vários antigos funcionários do território de Utah se tornaram amargos com os Mórmons por causa do seu bloco de votação e pela eleição de Brigham Young como governador pelo Presidente Mallard Fillmore, e voltaram para o leste dizendo que os Mórmons estavam fazendo conspirações e insurreições. O partido republicano pediu para que uma ação fosse tomada e o Presidente acatou essa decisão. Os Mórmons não haviam esquecido das perseguições que haviam sofrido antes desses dez anos de paz e decidiram não serem expulsos novamente. Brigham Young, o governador do estado de Utah e Presidente da Igreja, declarou a lei marcial, reorganizou a extinta Legião Nauvoo, e preparou para um guerra contra os Estados Unidos. Ele também solicitou a assistência de todas as tribos indígenas vizinhas, dizendo que os Mórmons e os índios precisavam se unir para evitar sua destruição pelas mãos do exército dos Estados Unidos.
Contendas e Acusações
Não havia muito noticias sobre o Partido Baker-Fancher pelos assentados Mórmons, este sendo um dos muitos que passaram durante anos até atingirem Fillmore. Começando dali, muitos boatos chegaram aos Mórmons de comportamentos e tratamentos rudes por parte dos emigrantes. Eles acusavam os emigrantes do Missouri, que se auto denominavam “Gatos Selvagens do Missouri”, de ter participado da expulsão dos Mórmons dos Missouri e Illinois, vários anos antes, e até mesmo no assassinato de Joseph Smith e seu irmão Hyrum Smith na Cadeia de Carthage. Um outro líder da Igreja, Parley Pratt, havia sido morto em Arkansas apenas alguns meses antes, e os emigrantes estavam sendo acusados também de ter participado disto. Eles ameaçaram que depois que chegassem à Califórnia, esse grupo voltaria para ajudar o Exército Americano a lidar com os Mórmons. Existiam também acusações que eles envenenaram um rio o qual resultou no adoecimento e morte de alguns índios e um dos Mórmons. A veracidade desses fatos não pode ser verificada, mas elas mostram que os colonos Mórmons se sentiram ameaçados, quando acabaram de ficar sabendo da invasão de um exército e também de ameaças vindo dos jornais da Califórnia. O que quer que seja que tenha causado a contenção entre os Mórmons e os emigrantes, não poderia ter vindo em um período mais perigoso. Já no limite por causa da guerra que estava pra começar, a associação entre os emigrantes e os assassinos dos líderes da Igreja Mórmon podem ter levado ao Massacre do Monte Meadows.
A Batalha
No início de setembro os emigrantes chegaram ao Monte Meadows, um pasto montanhoso fora da Cidade Cedar em Utah. Eles pararam ali para que os rebanhos pudessem pastar e descansar antes da longa caminhada pelo deserto para a Califórnia. Nesse mesmo tempo, os líderes da milícia do condado de Iron, tendo recebido a noticias e rumores sobre as ameaças feitas pelos emigrantes, estavam debatendo sobre o que fazer com aquele grupo de pessoas. Inicialmente eles despacharam mensageiros para os assentamentos próximos com ordens para deixar os emigrantes em paz, entretanto, o Major Isaac Haight preparou um plano para incitar os índios locais, os Pauite, contra os emigrantes, com John D. Lee como o seu líder. Lee partiu no dia 5 de setembro para levar adiante o plano. O grau de envolvimento dos índios é uma questão de debate polar. Alguns dizem que eles não estavam envolvidos de maneira alguma, e que foram os Mórmons que se disfarçaram de índios; outros dizem que os índios já estavam furiosos e que os Mórmons os segurava até decidirem o que iriam fazer. Em um conselho no Condado de Iron no dia 6 de setembro, as opiniões estavam divididas. Isaac Haight queria tomar uma atitude, mas Laban Morrill finalmente o convenceu a conversar com Brigham Young.
Na manhã da segunda-feira, dia 7 de setembro, James Haslam foi a Salt Lake para receber ordens de Brigham Young. Mensageiros também foram enviados para Lee, dizendo para ele proteger os emigrantes dos índios até segunda ordem – mas era muito tarde. Entre o nascer e o por do sol, os índios atacaram o acampamento no Monte Meadows, matando várias pessoas e ferindo outras. Os emigrantes responderam, matando e ferindo vários dos que os atacavam, e então começou uma batalha que durou mais quatro dias. Quando os mensageiros chegaram ao Monte Meadows, Lee havia ido para o sul para passar a noite próximo ao Cânion Santa Clara. A mensagem somente foi entregue a Lee na terça-feira à tarde.
A batalha continuou, mas na quarta-feira à noite, 9 de setembro, dois dos emigrantes passaram pelos índios e foram para a Cidade de Cedar para pedir ajuda. Em seu caminho eles encontraram alguns membros de uma milícia que eles pensaram que os ajudaria. Isso indica que os emigrantes estavam com a impressão que os que os atacavam não eram colonos Mórmons. Quando esses membros da milícia entenderam com quem eles tinham encontrado, eles atacaram, matando um, mas o outro fugiu de volta para o acampamento. Parece que esse evento selou o destino do Partido Baker-Fancher. Por vários anos os Mórmons do sul de Utah ouviram rumores de que o povo da Califórnia viria e os varreria de suas terras. Esse medo, o medo da guerra que estava para se romper, e a raiva contra o comportamento dos emigrantes fora demais para eles. Eles pensaram que o emigrante que havia escapado de volta para o acampamento os diria que foram os Mórmon, não os índios, que estavam os atacando, e se eles deixassem qualquer deles ir para a Califórnia agora, eles certamente levantariam uma turba contra ele. No dia 10 de setembro, James Haslam chegou em Salt Lake City e entregou a mensagem para Brigham Young. Haslam começou sua viagem de volta o mesmo dia com a resposta do Presidente Young para deixar os emigrantes em paz (uma cópia da carta é mantida nos arquivos da Igreja Mórmon). Esse mesmo dia Lee enviou mensageiros para a Cidade de Cedar para mais instruções. O que se resultou foi o que é conhecido hoje como o Massacre do Monte Meadows.
O Massacre do Monte Meadows
Pela manha de 11 de setembro, cerca de 50 a 60 membros da milícia estavam no Monte Meadows. Uma bandeira branca foi enviada para o acampamento e respondido pelo Sr. Hamilton. Lee conversou com ele e propôs que se eles entregassem as suas armas, os índios os deixariam, e que os Mórmons os daria passagem segura pela cidade de Cedar, até que pudessem voltar para a sua trilha rumo à Califórnia. com pouco munição e descanso, com várias pessoas já mortas e outras várias morrendo por causa dos ferimentos, eles aceitaram a oferta. Suas armas foram colocadas em um carroção e os feridos em outros. Eles seguiram em fila indiana, os carroções, as mulheres e crianças, e por último, os homens. Cada homem era acompanhado por um membro da milícia que marchava ao seu lado. Quando se aproximaram de um caminho onde havia muitos carvalhos e cedros, o líder da marcha deu um sinal, o qual se pretendia dizer “Faça o seu dever!”. Cada membro da milícia virou para o emigrante que eles estavam acompanhando e então atiraram neles. Por detrás das árvores, os índios os atacaram também, algumas pessoas tentaram escapar do ataque inicial, mas foram perseguidos e mortos. Somente as menores crianças foram poupadas. Os registros indicam que haviam dezessete crianças.
O Resultado
Jacob Haslam entregou a resposta de Brigham Young para Isaac Haight no dia 13 de setembro, dois dias depois. John D. Lee foi enviado a Salt Lake City para fazer um relato a Brigham Young sobre o ocorrido. Os líderes locais primeiro retrataram o incidente como um ataque indígena. Até o ano seguinte nada havia sido feito devido a chegada do exército e o novo governador. Quando as acusações e as evidências começaram a surgir contra os colonos, Brigham Young começou a pressionar o novo governador Cumming a investigar o caso. Foi a opinião de Cumming que qualquer coisa cometida por “brancos” (era assim que eram chamados as pessoas que não eram índios) seria perdoado devido a uma anistia concedida pelo Presidente Buchanan em junho de 1858 na Guerra de Utah, então, nenhuma investigação formal foi feito quando aconteceu o caso. Vários artigos foram feitos pelos contemporâneos da época, incluindo um de Mark Twain chamado Passando Aperto (Titulo original Roughing it), mas como todos os assuntos referentes aos Mórmons, esse também já foi dividido e os assuntos ali tratados foram distorcidos de uma maneira ou de outra. A habilidade que os críticos dos Mórmons tem para descrever tal evento com tantos detalhes é duvidoso, uma vez que os únicos sobreviventes foram crianças pequenas, e os participantes, certamente não falaram nada a esse respeito.
Muitas pessoas no Arkansas ficaram furiosas com esse caso e um impulso estava começando a surgir para uma investigação federal sobre o incidente. Entretanto, poucos anos depois começou a Guerra Civil e esse assunto foi quase completamente esquecido até que então foi novamente reacendido na década de 1870. Mas nessa época, já haviam se passado 15 anos desde o Massacre do Monte Meadows e os ânimos já haviam se acalmados e grande parte das evidências haviam desaparecido. Indiferente da culpa ou inocência dos participantes, os Mórmons se uniram para proteger o seu povo. Quando as investigações começaram eram difíceis para os promotores levarem o caso a julgamento, especialmente com o júri Mórmon. Depois de dois julgamentos, John D. Lee foi julgado culpado por seu envolvimento e então condenado à morte. Ele foi executado e enterrado em Panguitch, Utah em 1847. Ele foi o único homem julgado e condenado pelo envolvimento do Massacre do Monte Meadows.
Acontecimentos Recentes
Por muitos anos o Massacre do Monte Meadows foi um assunto considerado um tabu entres os Mórmons. Foi um acontecimento trágico na história Mórmon que muitos acham melhor esquecer. Juanita Brooks, uma Mórmon, deu ao incidente seus primeiros tratamentos completos em décadas com o livro O Massacre do Monte Meadows (Titulo original The Mountain Meadows Massacre), em 1962. Esse livro esclarece muitos juízos falsos e cita apenas fatos. A Igreja Mórmon nunca se responsabilizou ou condenou esse trabalho. Antes disso, um historiador da Igreja B. H. Roberts havia escrito sobre isso no início do século XX, mas apenas atualmente esse assunto veio a ser um ponto de grande debate. Em 1999 um novo monumento foi dedicado em memória daqueles que morreram no Monte Meadows. Isso pode ter sido um fator para o ressurgimento desse assunto, bem como o desenvolvimento da internet. Ele tem sido um ponto para o ataque contra a Igreja Mórmon, semelhantemente usado como uma evidencia para acabar com a credibilidade da doutrina Mórmon ou de sua religião.
Dois livros recentes procuram colocar toda a culpa em Brigham Young (embora John D. Lee acusasse Brigham Young e outros envolvidos anos mais tarde por tê-lo expulsado, ele manteve que Brigham Young era inocente concernente ao massacre). O livro de Will Bagely O Sangue dos Profetas (Blood of the Prophets) e o livro Sally Denton Massacres Americanos (American Massacre) tem como suas tese a culpa de Brigham Young. Historiadores Mórmons, Glen Leonard, Richard Turley e Ronald Walker, estão atualmente terminando um livro próprio, o qual afirma ser o trabalho definitivo sobre esse assunto devido a documentos históricos da Igreja Mórmon que não estava disponível anteriormente. Isso é indicativo às polêmicas concernentes ao Massacre do Monte Meadows. Assim como a maioria das histórias Mórmons, evidência é conflitante, e os fatos servem como meios para aqueles que querem prejudicar a Igreja. O que não é debatido é que a Companhia Baker-Fancher foi assassinada a sangue frio e que os perpetuadores desse ocorrido terão que se apresentar perante Deus para ser julgados por seus atos.
A Igreja Mórmon e muitos dos descendentes daqueles que foram assassinados tem trabalhado para restaurar a benevolência de ambos os lados desse acontecimento trágico. A Associação Monte Meadows foi fundada para esse fim.